Acho que este será o objetivo do design no futuro (ou pelo menos no meu futuro na área de design): transformar a função do objeto utilitário atribuída aos objetos pela sociedade de consumo em uma oportunidade transicional, oportunidade para que os consumidores aperfeiçoem sua percepção do mundo.

Este é o tipo de atividade tipicamente paradoxal em relação ao sentido original da norma, da regra, do padrão vigente, no sentido de elevar a tão-chamada realidade do mundo e da vida à sua dimensão plena.

No futuro a maioria dos produtos continuará a ser marcado por um alto grau de inovação e experimentação, à medida em que acreditamos que esta seja a maneira de desenvolver nossas habilidades para definir tendências, promover nossa marca e criar um veículo cultural destinado a desenvolver os projetos que chamamos `Super e populará. Alberto Alessi (1)

Alberto Alessi, CEO da Alessi, empresa italiana de design, tem importante papel no design contemporâneo. Há mais de três gerações, em conjunto com designers internacionalmente conhecidos como Ettore Sottass, Michael Graves, Frank Gery, Philippe Stark e outros, concebeu milhares de peças utilizadas no dia-a-dia da vida moderna, de relógios de pulso a chaleiras para preparar chá.

Muitas de suas peças estão expostas no Museu de Arte Moderna, no Metropolitan Museum of Art em Nova Yorque, o Centro Georges Pompidou em Paris e muitos outros.

Alessi tem método de trabalho que se adequa ao caráter dos produtos inovadores que sua firma projeta e produz. Ele começa o projeto de uma peça de maneira muito simples:

Quando temos uma ideia, começo a pensar em quem devo chamar. Normalmente me vêm à cabeça duas ou três pessoas. Discuto com eles. Se os designers se interessam, começam a trabalhar. Depois de alguns meses, recebo suas reações e então decido se continuamos ou não.

Não há pesquisa de mercado direta, a demanda não parte do público, mas da sensibilidade, do conhecimento tácito do empresário e dos designers em relação ao produto, ao público e ao contexto cultural em que se inserem.

Nosso modo é semelhante ao de Pablo Picasso. Imagine Picasso, na década de 1920, andando em uma agradável e ensolarada manhã em sua vila na Côte d’Azur e sentindo o forte desejo — necessidade — de começar a pintar. Então ele começa a píntar. Ele não fica se perguntando `Para que público-alvo vou direcionar minha nova pintura? Picasso nos mostra uma abordagem completamente diferente: começar pela própria pessoa, pelo criador, usando sua sensibilidade e intuição para tocar o coração ou a sensibilidade ou a intuição das outras pessoas.

Prefiro discutir o `sonho dos clientes` ao invés do `mercado’, porque o mercado é muito árduo.

As ideias não partem apenas de Alessi, todos os designers que trabalham com a empresa – e são mais de 200 – podem propor um produto e começar a conversar sobre ele, a esboçá-lo ao telefone. Se este começa a ganhar uma forma satisfatória, começam a desenvolvê-lo por fax ou email. E então vêm os encontros presenciais.

Os produtos criados são avaliados segundo quatro parâmetros:

A intensidade com que as pessoas falam: “Que objeto bonito”. Representa a relação individual entre o objeto e seu usuário. Eles a chamam SMI, pois se baseia na sensibilidade, memória e imaginação.

Como as pessoas usam o objeto para se comunicar com os outros, para afirmar seus valores, status social, o estilo da sua personalidade. Este parâmetro é especialmente visível na moda, com todo seu fator de disseminação social. Um relógio Rolex, por exemplo, é um símbolo de status social enquanto um objeto de Philippe Stark relaciona seu usuário a um determinado estilo de vida.

A função, se o objeto atende bem à sua funcionalidade.

O preço do objeto.

Cada um deste parâmetros tem cinco gradações, que se combinam para formar uma curva que mostra se o produto é adequado ou não à produção e à comercialização.

Apesar de não fazerem pesquisas antes do projeto de um objeto, Alessi e os designers associados se preocupam em conhecer a reação do público antes do lançamento. Esta reação não é determinante para que decidam se vão ou não produzir o objeto, mas para ajudá-los a ajustar ou mudar alguma coisa, o que acontece eventualmente. Se o projeto é considerado bom eles o realizam independentemente da reação do público.

A Alessi se intitula uma Fábrica de Design Italiano (“Italian Design Factory”). Seus principais valores se baseiam na sensibilidade, na intuição e no desejo de aceitar mais risco que a maioria dos negócios.

Os métodos autorais da Alessi e a gestão de projetos web

Dada a natureza dinâmica da internet, projetos web são marcados pela sempre renovada criatividade das soluções. Por isto pode-se pensar que a metodologia da Alessi é facilmente aplicável em projetos web. Sites, portais e plataformas web, como os produtos da “Fábrica de Design” da agência italiana, são resultado de intensa atividade projetual dedicada à criação de formas, funcionalidades experiências, ao uso de tecnologias especializadas, bem como à criação de identidades com o ambiente cultural e comercial em que são desenvolvidos.

Apesar das semelhanças, pode-se contra-argumentar que o processo de criação dos produtos da Alessi têm condições conjunturais (internas e externas) bastante específicas, que não estão presentes na maioria dos projetos web:

A empresa se dispõe a correr mais riscos que as empresas comuns, de modo que a quantidade de produtos que não venderam bem é bem mais alta que nas empresas mais conservadoras. Este alto grau de risco está incorporado ao modelo de negócios.

A empresa opera e é bem sucedida há três gerações em uma área de atuação bem definida, objetos inovadores e especiais para casas e escritórios. A imagem consolidada, bem como a confiança do público internacional, ajudam o posicionamento dos produtos novos (embora este último fator seja instável).

Devido à longa experiência, a empresa acumulou amplo conhecimento especializado do mercado, que se traduz nos produtos que produz. Este conhecimento, explícito ou não, está presente em seu método de design, o que diminui a necessidade de relatórios e pesquisas para a configuração conceitual dos produtos.

O método de avaliação e decisão sobre a produção dos produtos (os quatro fatores descritos acima) foi testado e consolidado na prática, havendo forte confiança da equipe na sua efetividade.

A equipe interna e externa é composta de profissionais que dominam não só os processos de criação como os processos de produção.

Embora sedutor, não se pode afirmar que o processo de criação de produtos da Alessi, ou a aplicação de um processo autoral, possa ser transposto literalmente para a elaboração de projetos web. Tudo depende das circunstâncias em que este é realizado. Estas variáveis incluem o perfil e as demandas dos clientes e dos usuários, os objetivos do projeto, a área de atuação, as características da equipe de projeto, o grau de risco que o empreendedor está disposto a correr e o custo deste risco.

Quanto maior o investimento, o número de pessoas da equipe e o retorno esperado, menor é a chance de se realizar projetos baseados em metodologias de maior cunho autoral, na medida em que as garantias de sucesso são menores. É importante observar, no entanto, que esta é justamente uma das características dos projetos da Alessi e possivelmente uma das razões para os seus excelentes resultados.

De qualquer forma, o sucesso de longo prazo do processo de trabalho da Alessi mostra que, mesmo quando adotamos metodologias de gestão de projetos consagradas por ampla massa crítica, como as recomendações do PMBoK ou métodos ágeis, a simples adoção destas ferramentas não garante que obteremos bons produtos.

Como no caso da empresa italiana, o resultado do projeto depende de muitas condições estruturais, mas acima de tudo da capacidade das pessoas envolvidas de tomar as decisões certas. Este valor intangível leva em conta sua formação, seu modo de elaborar o conhecimento, sua experiência, sua inserção no contexto funcional, as diversas camadas de relacionamentos internos e com o produto. Mas acima de tudo, leva em conta sua sensibilidade, sua memória e sua imaginação, bem como sua capacidade de inventar coisas novas no contexto funcional de criação e realização de cada projeto. (Publicado em 17.5.2009. Atualizado em 16.6.2010)

 

Referências

1) Cultivating innovation: An interview with the CEO of a leading Italian design firm (McKinsey, requer inscrição gratuita – acesso em 20.2.2009)

The halo effect, and other managerial delusions, Phil Rosenzweig, sobre a relação entre planejamento e resultados na gestão empresarial. (McKinsey Quarterly, acesso em 23.3.2007)