O design de sistemas é um modelo de abordagem de problemas que se apropria da composição de arranjos entre componentes para a proposição de soluções. Ou seja, um sistema e suas entidades, dialogando de modo integrado, ficam no centro do processo de design.

Os sistemas não são compostos apenas de interfaces e fluxos de dados/informações, mas também de pessoas, dispositivos, máquinas, objetos, processos. Compõem espaços de informação com os quais se interage com entidades tanto digitais (diferentes mídias, canais) quanto físicas.

O design de sistemas procura criar uma visão holística destes elementos, dos contextos em que estão associados e dos problemas que precisam ser resolvidos.

No projeto de mídias digitais, em que é necessária a modelagem de processos interativos e de interlocução entre pessoas e/ou agentes automatizados, este modelo de abordagem é especialmente útil, na medida em que considera o exame rigoroso do contexto geral de uso para chegar a componentes, aplicativos, dispositivos.

Alguns especialistas afirmam que o design de sistemas não valoriza o design centrado nos usuários e as atividades realizadas dentro de seu âmbito, mas na verdade o design de sistemas apenas considera que os métodos voltados aos usuários devem ser aplicados de maneira localizada, na criação de soluções específicas dentro do sistema.

Exemplo
O iPod foi desenhado de modo que não existe como um produto isolado, mas como parte de um sistema que integra o consumo de conteúdo em diversos formatos. O dispositivo em si é limitado, importa e toca arquivos, permite a navegação entre eles, a alteração do volume, não tem botão de ligar-desligar. Mas a Apple se encarregou de complementar a experiência de uso: através do iTunes, provê conteúdo (músicas, apps, podcasts), modos simples e baratos de aquisição, de arquivamento e recuperação do conteúdo adquirido. E por meio do iPad provê uma experiência móvel mais completa.

As transações são viabilizadas pelos acordos da empresa com os principais fornecedores de músicas do mercado, o que permite que os usuários adquiram facilmente os arquivos de sua preferência. O sistema de mídias integradas, com dispositivos, programas e serviços, procura eliminar as funcionalidades desnecessárias e focar na experiência de consumo daquilo que realmente interessa ao consumidor: mídias digitais. Em qualquer hora, qualquer lugar.

Neste caso, o design centrado no usuário está concentrado nas interfaces do iPod e do iTunes, enquanto o design de todo o sistema concebe o ambiente completo, que tira partido de todas as vantagens que a tecnologia disponibiliza para a interação entre as pessoas e os dispositivos.

Esse modelo de desenvolvimento de produtos pode ser muito complexo e caro em pequenos ambientes/projetos. Já em projetos grandes e longos, que envolvam equipes multidisciplinares e contextos complexos, é bastante eficiente para a definição de objetivos, dos processos de comunicação interna e de gerenciamento de processos.

Perguntas a considerar para o design de sistemas

Que sistema precisa ser criado para resolver um problema?

Um sistema é composto por diversos componentes e precisa ser mais do que a soma destes componentes. Um sistema de gerenciamento de conteúdo precisa prever todos os processos de edição e interação entre profissionais e processos relacionados. Não tem utilidade se apenas permite a edição e a publicação de textos. Por isto, a definição inicial do problema deve ser mais abrangente que suas partes e desafiar visões de negócios tradicionais.

Quem define o sistema, o ambiente, os objetivos?

Há organizações que consideram os clientes como um conjunto de resultados de pesquisas de opinião ou como perfis obtidos a partir de grupos focais. Mas os enormes volumes de dados não têm utilidade se as equipes multidisciplinares que definem os sistemas não tiverem um profundo entendimento da vida real dos clientes. Ou seja, quem define o sistema é quem realmente conhece os usuários e suas necessidades.

Qual é o ambiente em que o sistema opera?

É preciso compreender o sistema em seu contexto de uso amplo, para aliar estratégia, requisitos e a articulação das partes na criação das experiências de uso.

Quais os objetivos do sistema em relação a seu ambiente?

A definição dos objetivos do sistema a desenvolver e das suas dependências pode estar clara para os gestores, mas é preciso sempre manter em perspectiva os usuários, como reagem nos diversos pontos de contato, como converter cada processo em solução.

Que recursos o sistema tem para manter os relacionamentos necessários?

As relações em cadeia precisam de garantias de que vão ser realizadas corretamente em todas as suas etapas e em todas as possíveis variações de uso.

Estes recursos são suficientes para o sistema alcançar seus objetivos?

Nem sempre o bom funcionamento de um sistema garante seu sucesso, é preciso que seja representativo de seu contexto de uso.

O design do sistema é compatível com o design centrado no usuário?

Os pontos de vista dos clientes finais devem ser entendidos de maneira ampla e considerados em bases permanentes durante o projeto e em seu aperfeiçoamento.

Qual o retorno contínuo através do qual o sistema corrige suas ações?

O retorno é a saída do sistema que registra o que aconteceu e acontece: a entrada recebida, as mudanças ocorridas durante a ação do usuário e do sistema, o resultado. De modo geral, o retorno acompanha o trabalho realizado.

Como verificar se o sistema alcançou seus objetivos?

Muitos gestores são obcecados por atributos mensuráveis e aperfeiçoáveis, como o retorno sobre o investimento, market share, taxas de produtividade, estatísticas de acesso. No entanto, as medidas de valor do produto e da experiência do usuário são muitas vezes difíceis de medir. O exame de questões subjetivas sobre o uso em um contexto como um todo representa sempre um desafio.

Quem monitora o sistema? Como?

O próprio sistema? Gestores? Engenheiros? Vendedores? Marketeiros? Clientes? Fornecedores? Em potencial, os responsáveis diretamente pelas respostas do sistema e por seu uso podem monitorar o sistema. (1)

Atividades relacionadas ao design de sistemas

As atividades relacionadas ao design de sistemas são, de modo geral, as mesmas relacionadas ao design dos seus componentes, apenas a abordagem do escopo é mais ampla. Incluem, de maneira simplificada:

Análise de requisitos – avaliação das necessidades e do contexto de uso pelos clientes finais.

Benchmarking – avaliação de sistemas já existentes.

Arquitetura – modelo com as especificações de hardware, software, pessoas e informações necessárias para o design do sistema. Podem ser necessárias diversas tentativas até que se chegue a um modelo satisfatório.

Design – Também aqui pode ser necessário que os designers façam diversos modelos até chegar a uma solução de consenso, que é registrada e descrita. Os modelos gerais são divididos em módulos individuais com malhas, fontes, estilos de fontes, palhetas de cores, que funcionem com autonomia, mas tenham ligação visual e conceitual com o conjunto. Estes modelos evoluem durante o projeto e constituem, no lançamento dos produtos, um Guia de referência de estilos, a ser utilizado na evolução dos produtos criados e na criação de novos produtos.

Programação e ajustes no ambiente de negócios ou de uso – especificação dos componenentes finais do sistema e de seu funcionamento.

Testes em todas as fases de projeto e depois do lançamento do/s produto/s – avaliação das funcionalidades em relação à integração de todas as partes, bem como aos objetivos de negócios avaliados inicialmente.
O design de sistemas pode envolver muitos componentes, como um sistema de vendas online, que inclui desde interfaces de compra online até a formatação da logística de entrega. Ou pode envolver componentes mais simples, como o sistema de cadastro para recebimento de mala direta. Sua criação exige uma visão ampla do problema a resolver e a consideração do contexto de funcionamento como um todo. Em decorrência disso, a visão do produto e do serviço é abrangente e permite o desenvolvimento de produtos complexos e plenamente integrados a seu contexto de uso.

(Texto publicado em 15.10.11)

 

Referências

1) What is systems design, de Hugh Dubberly (Dubberly Design Office, acesso em 15.10.2011)

Livro: Designing for interaction – Creating innovative applications and devices, de Dan Saffer. Berkeley: New Riders, 2010

Livro: Subject to change – creating great products and services for an uncertain world, de Peter Merholz e Brandon Schauer. Sebastopol, CA: O’Reilly, 2008

Livro: Designing interfaces – Patterns for effective interaction design, de Jenifer Tidwell. O´Reilly, 2005