Arquitetura da informação

Narrativas interativas: Percursos e ações dos usuários

Narrativas interativas: eixos horizontal e vertical

Atualizado em 6.5.2012

No final do século 19 e início do século 20, o linguista suíço Ferdinand de Saussure formulou um modelo para descrever linguagens naturais (como o português). Seu modelo foi expandido posteriormente por teóricos como Roland Barthes, que o aplicaram a sistemas de signos, como narrativas literárias, ou atividades como a culinária ou a conjuntos de objetos. Mais recentemente, autores como Lev Manovich, Andrea Resmini e Luca Rosati vêm procurando aplicar o modelo de Saussure no exame de estruturas de linguagem entre canais digitais.

Uma das contribuições mais importantes de Saussure para a semiótica foi a dimensão dos eixos sintagmáticos e paradigmáticos da descrição linguística, que podem nos ajudar a examinar como as unidades de informação se organizam entre diversas mídias digitais.

Segundo o autor, sintagma é “a combinação de formas mínimas em uma unidade linguística superior”. A unidade linguística superior ocorre a partir da singularidade do signo, que impossibilita a pronúncia simultânea de dois elementos, pois um termo só passa a ter valor no momento em que contrasta com outro. De modo geral, a dimensão sintagmática se relaciona à combinação de diferentes signos entre si, num contexto definido.

-> Por exemplo, quando um estudante faz uma pesquisa na web para um trabalho acadêmico, coleta conteúdo de diversas fontes, acrescenta novas ideias e edita o conteúdo novo numa sequência linear a partir dos fragmentos. As açõe s de encadeamento dos fragmentos estão relacionadas à dimensão sintagmática.

A dimensão sintagmática mostra um produto de linguagem presente, concreto, que tende a se articular de modo horizontal.

Já o paradigma é um "banco de reservas" da língua, formado por conjuntos de termos que encadeiam as oposições/ exclusões entre as unidades linguísticas. Está relacionado aos signos de mesma natureza que são escolhidos para compor diferentes relações sintagmáticas.

-> No caso do estudante ao pesquisar na web, cada unidade de conteúdo que seleciona, entre outras, para compor a sua pesquisa, mantém uma relação paradigmática com outros elementos da mesma natureza. A escolha de quais unidades, entre diversas outras, serão utilizadas está relacionada à dimensão paradigmática.

A dimensão paradigmática é abstrata, imaginária, não mostra um produto explicito, tende a se articular de modo vertical (entre unidades que têm alguma coisa em comum e se associam).

Sintagmas e paradigmas em espaços online

Num web site, a dimensão sintagmática do conjunto de informações está relacionada a todas as unidades de conteúdo editado (páginas, telas), bem como ao modo como as unidades se articulam entre áreas (links, agrupamentos) ou numa mesma área. E a dimensão paradigmática se refere a todas as áreas e unidades de informações que estão publicadas e as que poderiam ser publicadas.

Mas no modo como as narrativas online se articulam, há uma diferença em relação a outros sistemas de signos, como a língua corrente, por exemplo. As narrativas construídas pela navegação de cada usuário numa mídia digital têm componentes que reorganizam suas dimensões sintagmática e paradigmática.

Compostas por fragmentos acessados durante o deslocamento dos usuários entre telas, com o acesso a links, botões, textos, imagens, vídeos, áudios (sintagmas), as narrativas, para os usuários online, não são articuladas materialmente, existem como construção interna de cada um. Ou seja, a dimensão sintagmática, neste caso, em vez de gerar um produto concreto, gera um produto abstrato.

Também para os projetistas de web sites, as narrativas online são compostas por conjuntos de links, ordenações das unidades de informação, modos de agrupamento e relacionamento entre elas a partir da visão geral de cada produto. Estas narrativas não existem concretamente, não podem ser vistas. Também para eles a dimensão sintagmática, horizontal, é abstrata, imaterial.

Por outro lado, numa tela pode-se ver diversos links que dirigem o usuário para outras telas. O conjunto destes fragmentos de informações, caminhos possíveis para compor uma unidade linguística, forma um paradigma ("banco de reservas" de informações potencialmente acessáveis). O mesmo acontece em relação ao conjunto de telas ou páginas que compõem o site, os usuários sabem que seguem apenas alguns dos caminhos disponíveis, ou seja, fazem escolhas a partir do paradigma.

Os textos de um site, suas imagens, vídeos, áudios, têm existência real, pertencem a um mesmo universo, estão arquivados no mesmo servidor e todos poderiam ser acessados pelos usuários e fazer parte da sua narrativa. Por isto, neste caso a dimensão paradigmática, vertical, apesar de virtual, não é imaginária como acontece na articulação de um discurso textual (em que as opções existem como termos possíveis a serem selecionados para compor um discurso). No mundo digital, as unidades de informação são reais.

Assim, em ambientes online, a dimensão sintagmática gera produtos abstratos (as narrativas dos usuários), enquanto a dimensão paradigmática se baseia em unidades de informação concretas (as unidades de informação e de uso que compõem as mídias).

Na elaboração de modelos conceituais de mídias digitais, pode-se usar as dimensões horizontal e vertical, sintagmática e paradigmática, como referências para o projeto de diferentes produtos, em diferentes mídias, para diferentes tratamentos de conteúdo.
Texto publicado em 15.4.2012.


Assuntos relacionados
Cross-channel (canais cruzados, transchannel)
Cross-channel – fatores contextuais
Cross-channel – visão geral do projeto
Mapas conceituais
Modelos mentais dos usuários
Relacionamento site-usuário

Referências sobre narrativas interativas
Livro: Pervasive information architecture: Designing cross-channel user experiences, de Andrea Resmini e Luca Rosati. Burlington, MA: Morgan Kaufmann, 2011.
Texto Banco de dados como forma simbólica, de Lev Manovich, em Database Aesthetics – Art in the Age of Information Overflow, organizado por Victoria Vesna. Mineapolis – London: University of Minnesota Press, 2007.
Texto Ocean, Database, Recut, de Grahame Weinbren, em Database aesthetics - Art in the age of information overflow, organizado por Victoria Vesna. Mineapolis – London: University of Minnesota Press, 2007.

Mais sobre o assunto (links externos)
Experience themes, de Cindy Chastain (Boxes and Arrows, 6.10.2009, acesso em 27.10.2009)

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