Arquitetura da informação
Narrativas interativas: Percursos e ações dos usuários
Narrativas não-lineares
A não-linearidade dos percursos se afirma como uma das principais características da linguagem hipertextual da web. Nos ambientes hipertextuais, as narrativas constituídas pelos deslocamentos dos usuários são criadas a partir do encadeamentos de nós de informações descontínuos e entrelaçados, que misturam as escolhas e decisões subjetivas dos usuários aos modelos de arquitetura da informação dos sites percorridos.
Examinamos aqui dois exemplos de navegação online que ilustram a diversidade dos modos de navegação não-lineares. São descrições simplificadas, que ajudam a examinar os elementos constitutivos das narrativas estabelecidas pelos usuários através dos seus percursos online. E também a estabelecer relacionamentos possíveis entre a arquitetura da informação de web sites com estas narrativas.
Narrativa não-linear entre sites
Tomemos como exemplo Leonardo, um estudante que está usando a internet para fazer um trabalho escolar. Ele acessou seu buscador predileto e procurou diversas combinações de termos. Quando encontrou um conjunto de resultados satisfatórios, começou a investigar os links cujas descrições lhe pareciam mais adequadas. Abriu várias abas no browser e começou a verificar os resultados.
Enquanto pesquisava, recebeu um telefonema de um amigo que lhe perguntou o que faria no sábado à noite e resolveu procurar a programação de festas do final de semana. Abriu outra aba, fez outra busca, achou uma festa interessante, ligou de volta para o amigo, conversaram sobre a festa. E voltou à pesquisa anterior. Assim, aos poucos, a partir das páginas e informações que percorreu, foi construindo alguns percursos e narrativas próprias.
■ Seus percursos poderiam ser representados mais ou menos assim:
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Os processos e as narrativas construídas a partir do percurso se estruturam em torno dos interesses de Leonardo e do modo como realizou suas buscas. Cada nova página sobre os assuntos pesquisados se superpõem à tela antiga e geram uma nova percepção multiplicada, da idéia produzida a partir da tela anterior.
As cores mais vermelhas na imagem acima assinalam as páginas que despertaram maior interesse, os preenchimentos mais claros assinalam as páginas menos interessantes.
A segunda busca, que não tinha relação direta com o assunto pesquisado na primeira busca, se somou ao tempo geral da navegação. No entanto, seu conteúdo não fez parte da narrativa sobre a pesquisa escolar embora tenha feito parte da cronologia geral que a navegação do estudante construiu naquele tempo de acesso.
■ Assim, na navegação que usa como referenciais os resultados de buscas, uma série de elementos característicos da linguagem web contribui para a escolha dos pontos de conexão, como os textos junto aos links na página de resultados, a organização interna de cada página selecionada, seus elementos funcionais, as ferramentas de navegação, o layout, a edição e publicação do conteúdo.
Através destes elementos, o usuário tem uma pista se o assunto principal atende ao seu interesse, se está suficientemente aprofundado, se há outras fontes de informação e links que o conduzam a informações relacionadas, se os termos pesquisados estão presentes. E articula/ modula suas ações de acordo com estas indicações.
O resultado das buscas cria uma narrativa descontextualizada, mas ao mesmo tempo recontextualizada em si, baseada na hierarquização temática proposta pelos algoritmos.
Narrativa não-linear em um mesmo site
■ Já quando o usuário percorre um mesmo site num determinado período de tempo, a narrativa que constroi a partir da sucessão de páginas que visita se atém estrutural e tematicamente à arquitetura da informação, a divisão interna de seções e subordinações.
http://www.ballgame.org/
■ Embora o usuário normalmente selecione os assuntos que o interessam, procura fazê-lo de acordo com os elementos que as ferramentas de navegação lhe indicam. Neste caso, cada tela isolada e seus elementos têm menos importância do que na navegação guiada pelos resultados da busca, pois o conjunto de páginas temático se sobressai. Ganha importância a experiência de uso daquele ambiente (como o assunto principal é tratado? com que enfoque? está suficientemente claro e desenvolvido? o desenvolvimento atende aos objetivos do usuário? os links motivam a seleção e a exploração das diferentes áreas?).
O deslocamento do usuário neste ambiente é tematicamente unificado e coerente. O percurso que segue de página em página, de acordo com sentidos que acompanham uma geometria fragmentada, é suscetível a combinatórias, num itinerário a partir do qual cria e multiplica suas deduções. Seu percurso não altera a estrutura, apenas a reorganiza segundo seu ponto de vista.
■ Nos dois exemplos de percursos não-lineares descritos acima, as páginas e objetos sociais, unidades temáticas e temporais das narrativas constituídas pelos percursos dos usuários, são considerados tanto isoladamente (como no resultado de busca), quanto num contexto informacional definido (um mesmo site) e afirmam o seu papel dentro do universo de conteúdo de interesse de seus usuários.
Estas perspectivas nodais e contextualizadas das páginas e objetos são resultado do deslocamento e da multiplicação conceitual de cada um, ações essencialmente criativas controladas pelo usuário.
Ambientes em que as estruturas da internet ou de cada web site com páginas e objetos (como unidades nodais) favorecem estas ações têm uma matriz conceitual que considera a construção de narrativas pelos usuários em suas circunstâncias de uso. Estas matrizes criam as condições para que narrativas não-lineares se constituam funcionalmente, de acordo com os objetivos e o enfoque comunicacional de cada pessoa.
Texto criado em 31.8.2009.
Assuntos relacionados
► Relacionamento site-usuário
► Modelos mentais dos usuários
► Personas – elementos e ligações
► A configuração técnica do usuário
► Testes
Referências
► Livro: A forma do filme, de Sergei Eisenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.
► Beyond myth and metaphor* - The case of narrative in digital media, de Marie-Laure Ryan (Game Studies, acesso em 9.8.2009). Marie-Laure Ryan descreve narrativa como um signo com um significante (o discurso) e um significado (a estória, a imagem mental, a representação semântica). O significante pode ter diversas manifestações semióticas, como a narração verbal de uma história, ou os gestos e as palavras de um diálogo travado entre atores numa peça teatral, por exemplo. Já o significado é o que define a narratividade em si, o universo de significados que independe do suporte em que a narrativa se desenvolve.
► O jogo das construções hipertextuais (PDF, 319 páginas), de Adair de Aguiar Neitzel – tese de doutorado apresentada em março de 2002 (Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, acesso em 9.8.2009)
► Use of narrative in interactive design, de Nancy Broden, Marisa Gallagher e Jonathan Woytek (Boxesandarrows, 28.10.2004, acesso em 9.8.2009)
Mais informação sobre o assunto
► Dwell time diagram, Jakub Linowski, sobre imagem e nota de Nik Lazell(Wireframesl, 27.11.2009, acesso em 29.11.2009)
► Imagem do fluxo de diversos acessos simultâneos a um mesmo ambiente web (Abler, Killingbeck & Randall, 5.11.2009, acesso em 27.10.2009)
► Experience themes, de Cindy Chastain (Boxesandarrows, 6.10.2009, acesso em 27.10.2009)