Arquitetura da informação
Narrativas interativas: Percursos e ações dos usuários
Subclasses das unidades das narrativas interativas
Atualizado em 22.11.2009As duas principais classes das unidades das narrativas propostas por Roland Barthes em seu texto "Introdução à análise estrutural da narrativa"(1) distinguem as funções (relacionadas às ações dos personagens) e os índices (relacionados às características psicológicas, culturais, sociais dos contextos em que as ações ocorrem). No detalhamento estas ramificações, o autor propõe quatro subclasses, que examinamos aqui no contexto das narrativas construídas pelos usuários online.
■ Ao descrever a classe das funções, Barthes verifica que nem todas as suas unidades têm a mesma importância dentro da história. Algumas são fundamentais para o encadeamento e o desfecho, outras funcionam apenas para preencher espaços, criar ritmos, andamentos, articulações. Ele denomina as primeiras funções cardinais (ou núcleos) e as segundas, catálises.
Já ao descrever a classe dos índices, Barthes distingue os elementos que caracterizam a narrativa, seus personagens, sua atmosfera, dos que servem para identificar os elementos e situá-los no tempo e no espaço. Chama os primeiros de índices propriamente ditos e os segundos de informações.
O esquema abaixo resume as relações entre classes e subclasses:
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Detalhamos a seguir estas quatro subclasses e a aplicação destes conceitos a narrativas interativas.
Funções cardinais
■ As funções cardinais podem abrir uma ação de uma narrativa (como a de realizar uma busca online, por exemplo), mantê-la (usar a busca como referência para uma navegação) ou fechá-la (selecionar um link nos resultados e encerrar a consulta à busca inicial). Correspondem aos momentos de risco, suspense, dos quais não se sabe o final, ou então os momentos que encerram/ resolvem a narrativa.
-> Por exemplo, numa narrativa literária, se a campainha da porta toca no meio da noite e o rumo da história muda a partir daí, o toque da campainha é uma função cardinal.
-> Numa narrativa online, quando um usuário recebe um pedido de uma pessoa para fazer parte dos seus relacionamentos numa rede social, este pedido pode modificar suas ações naquele momento para aceitá-la na sua rede e se comunicar com a pessoa. Neste caso, este pedido é uma função cardinal.
-> Um pesquisador em busca de um texto na internet sobre um assunto, ao achar uma fonte satisfatória, pode resolver imprimir o texto e encerrar aí a navegação. Ou então pode usar o texto para servir de base a novas consultas. Estes dois últimos casos podem ilustrar funções cardinais da narrativa deste pesquisador.
■ A importância das funções cardinais para as narrativas interativas se estabelece em função do seu papel para realizar os objetivos do usuário. Por isto, embora se possa chegar a alguns consensos genéricos sobre a sua importância, esta varia de acordo com os critérios subjetivos de cada usuário.
Catálises
■ As catálises são funções que se situam, ou ocorrem, "entre" as funções cardinais, são ações de funcionalidade mais tênue. Existem para separar momentos importantes da história, ou manter o seu sequenciamento. São pontos de pausa, repouso, que criam ritmo, aceleram ou retardam o discurso, enfatizando a tensão semântica. Referem-se mais à construção de significados que às ações que ocorren na narrativa.
-> No filme À procura de Eric, de Ken Loach, o intervalo entre o almoço em família e a invasão da casa onde estão os personagens por um bando de policiais armados é preenchido por diálogos alegres em que pais e filhos reacendem seus laços afetivos. As conversas preenchem o tempo com harmonia e serenidade, que logo é interrompida pela violência das armas e dos gritos. As conversas, como catálises, ajudam aí a evidenciar o conflito entre as duas ações - o almoço e a invasão.
-> Numa narrativa online, uma pausa do usuário para ver uma apresentação, ou um vídeo, que encontrou ao acaso pode ser uma catálise. Caso ele/a não visse a apresentação, seu percurso ou suas ações não mudariam.
-> A leitura do perfil de um usuário antes de aceitá-lo como contato numa rede social pode ser uma catálise, caso sirva para a elaboração de discurso entre a decisão de seguir o link do convite e a de aceitá-lo.
Índices (como subclasse)
■ Subordinados à classe dos índices, são elementos da narrativa que ajudam a criar a sua "atmosfera", seu clima. Uma história de suspense é carregada de índices que vão aumentando de intensidade até o clímax final.
-> Um palácio de aparência sombria, o bigode esquisito de um pintor, o comportamento aristocrático de um bandido, por exemplo, são índices que influenciam a caracterização dos elementos da história (mas que não influenciam diretamente suas ações e o seu desfecho).
-> Numa narrativa online, índices podem ser os sinais que indicam se um site é popular ou não, se é indicado para pesquisas acadêmicas, se publica notícias. As telas carregadas de ofertas de alguns sites de varejo sinalizam os preços baixos e pechinchas. Neste caso, os índices são elementos como cores, tipologias, estilos de textos, tratamento de imagens, animações, composições que identificam este tipo de site.
Elementos de layout e tratamento do conteúdo são basicamente indiciais, pois criam (ou não) relações empáticas com o público-alvo. Remetem quase instantaneamente para o conceito editorial/ comercial/ expressivo ao qual o site está associado.
Informantes
■ São dados precisos e significantes que conferem realismo e autenticidade à história. Não levam o leitor ou usuário a decifrar uma determinada pista ou indício. Pelo contrário: os informantes são claros e trasparentes, sua funcionalidade não está na construção da história, mas na construção do discurso.
-> Numa história de terror, se a idade do mordomo do castelo é uma informação realista que não interfere no desenrolar da trama e não traz em si um elemento que influencia a expressivividade da composição em geral, constitui um informante.
-> Numa narrativa online em que o ambiente de navegação e de uso contém muito mais conteúdo que o usuário tem necessidade ou interesse de ver, podemos considerar informante todo elemento editorial presente em qualquer momento da ação que apenas contribua para compor o contexto, como a data, a hora do acesso, localizada num canto da página. Neste caso, informante é um elemento composicional quase neutro, embora sua função seja em si importante para ilustrar a narrativa.
■ A compreensão sistemática dos elementos das narrativas interativas nos permite entendê-las fora dos limites dos sites e plataformas web, a partir de parâmetros mais amplos que os estabelecidos pelos conceitos editoriais e comerciais dos negócios e metas a eles relacionados.
Estes elementos nos permitem analisar os ambientes web sob o ponto de vista dos usuários, levando em conta seus modelos mentais, suas afetividades, seus contextos culturais, os quais diferenciam as histórias que criam a cada momento, das histórias que outros usuários também tecem em diferentes tempos na grande rede.
Texto publicado em 22.11.2009.
A ver: a possibilidade de criação de subclasses para as ações em que os usuários tenham mais ou menos controle sobre as suas próprias narrativas; ações coletivas e individuais; ações realizadas ou não de acordo com o tempo de acesso.
Assuntos relacionados
► Relacionamento site-usuário
► Modelos mentais dos usuários
► Tipos de estruturas
► A configuração do usuário
Referências
1) Introduction to the structural analysis of narratives. In Image, Music, Text, de Roland Barthes. p. 79. New York: Hill and Wang, 1977.
► Inteligência competitiva em organizações: dado, informação e conhecimento, de Marta Lígia Pomim Valentim (Datagramazero, 8.2002, acesso em 22.11.2009)
► Dado, informação, conhecimento e competência, de Valdemar W. Setzer (IME/ USP, 2001, acesso em 22.11.2009)
Mais informação sobre o assunto
► Experience themes, de Cindy Chastain (Boxesandarrows, 6.10.2009, acesso em 27.10.2009)