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Narrativas interativas: Percursos e ações dos usuários

Unidades das narrativas interativas

Atualizado em 22.11.2009

As narrativas construídas pelos usuários em seus percursos na web incluem o acesso a sites, o uso de ferramentas de buscas, a participação em programas, jogos, sites de relacionamento, a realização de compras, cadastros, o compartilhamento de informações e objetos sociais. Estas narrativas que o uso e a experiência de uso das interfaces online encadeiam são compostas por unidades significativas, ou semânticas, que examinamos aqui com o auxílio dos elementos propostos por Roland Barthes em sua "Introdução à análise estrutural da narrativa". (1)

Consideramos aqui os elementos constitutivos das narrativas não como unidades fisicamente aproximadas e somadas umas às outras, mas como integrantes de sistemas de significação que não fazem sentido se não tiverem lugar na ação dos usuários e nos discursos que estes constroem.

O texto de Barthes é adequado ao exame destas unidades, na medida em que propõe a análise estrutural das narrativas de maneira ampla, sendo estas caracterizadas pela "linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura desordenada de todas estas substâncias". Apesar da amplitude do escopo, a análise, de 1976, não cita explicitamente a narrativa composta pelo conjunto de ações de usuários de interfaces digitais. Por isto, procuramos aqui estabelecer algumas relações possíveis entre os elementos descritos e estes tipos de narrativas.

As unidades linguísticas - suportes

Segundo Barthes, as unidades das narrativas se estabelecem de acordo com a sua funcionalidade das suas unidades. As unidades são portanto elementos funcionais, ou seja, elementos que trazem em si condições seminais para o encadeamento e o desfecho da narrativa.

Sob o ponto de vista da articulação da língua, as narrativas são compostas por unidades linguísticas, registros necessários à sua construção.

-> Em narrativas orais, textuais ou audiovisuais, um objeto que cai casualmente, uma chamada telefônica no meio da noite, um tiro, podem ser unidades que interferem radicalmente nos seus desfechos. As unidades linguísticas nos dois primeiros casos são compostas por expressões, orações, períodos. No caso das narrativas audiovisuais, pela composição dos enquadramentos, pelos elementos composicionais, pela sucessão de planos, pelos volumes dos elementos, pelas relações espaciais entre les, pelas luzes e cores, pela temporalidade das cenas.

-> Um texto numa página web, um formulário de compras, um game, podem ser unidades de narrativas interativas que interferem radicalmente no seu desfecho (o percurso, as ações ou a experiência do usuário). Podem ser mais ou menos dependentes das unidades linguísticas que as compõem - páginas, textos, campos de formulários, imagens, botões, links, vídeos, áudios, animações.

-> Páginas (ou telas) como esta que você está lendo são unidades linguísticas da narrativa composta por sua navegação neste momento. Se este texto interfere verticalmente no encadeamento de ações e decisões que você está examinando em relação a um assunto, este texto pode compor uma unidade mais ou menos importante da sua narrativa.

-> As páginas iniciais de redes sociais, nas quais acontecem ou podem acontecer ações como o envio de uma mensagem, a atualização de um perfil, o arquivo de uma foto, entendidos como suportes, são unidades linguísticas, as quais incluem em si outras unidades linguísticas, ligadas às diversas funcionalidades dessas interfaces. Quando os usuários realizam ações, as unidades linguísticas se transformam em unidades das suas narrativas participativas - de acordo com a importância que têm para cada um na construção de significados.

É importante ressaltar que, embora Barthes se refira às unidades das narrativas como as determinadas a partir do caráter funcional dos seus elementos, ele não se refere às funcionalidades dos elementos do suporte (o modo de funcionamento dos botões, por exemplo). O caráter funcional a que o autor se refere se relaciona à construção semântica e ao encadeamento da narrativa.

As unidades funcionais - ações signicativas

No entanto, sob o ponto de vista funcional, as narrativas são compostas por unidades de conteúdo independentes das unidades linguísticas, as unidades funcionais, que se estabelecem a partir do valor conotado dos seus elementos para o narrador-personagem. Simplificando um pouco, as narrativas são compostas por unidades funcionais que expressam a construção de significados (interiormente necessários à construção da própria narrativa) por aquele que as constroem.

-> Se um personagem de uma história está procurando por um homem gordo e careca, com cerca de um metro e meio de altura, esta ação indica que o personagem não conhece o homem procurado, e também que este tem características que serão úteis para a construção da sua participação na história, mais adiante.

No caso das narrativas interativas aqui consideradas, as unidades funcionais são construídas pelo próprio usuário (ou pessoas com quem se relaciona), para a realização de seus objetivos

-> Se uma pessoa está procurando conhecer um modelo de câmera digital, as unidades funcionais da narrativa da sua busca online se relacionam às suas ações para obter informações sobre a câmera. Se ela digita o nome da câmera num campo de busca e depois aciona o botão "Procurar", estas duas ações e as interfaces relacionadas compõem unidades da sua narrativa. Quando ela lê os resultados da busca e seleciona um dos links, estas ações e seus suportes técnicos também são unidades da narrativa.

Mas e se no meio da busca ela muda de ideia e resolve acessar o seu programa de webmail para checar suas mensagens? Neste caso, ela interrompe a narrativa anterior (que pode ser retomada mais adiante) e começa nova narrativa. Se uma das mensagens da caixa postal traz informações sobre a câmera digital procurada, as duas narrativas convergem.

Pode-se perguntar: Se consideramos o intervalo cronológico das duas narrativas como um fator agregador, podemos considerar duas narrativas realizadas durante um acesso como uma única narrativa? O intervalo de tempo contínuo do acesso é um fator estrutural que permite unificá-las?

Se não há um encadeamento temático entre as duas narrativas, se não há uma relação de "solidariedade" funcional entre elas, a construção de uma sintaxe comum ou uma unidade de conteúdo estruturalmente coesa entre as narrativas tende a se interromper, permanecendo apenas uma unidade cronológica, insuficiente para caracterizar uma narrativa. Neste caso, podemos afirmar que as duas narrativas paralelas permanecem independentes.


As unidades linguísticas e funcionais são registráveis e compartilháveis (como num chat, como nos fórums), mas é importante ressaltar que os registros em si não resumem as narrativas construídas. A construção das narrativas online não estabelece relacionamentos horizontais, compostos pelo somatório mecânico das suas unidades e dos seus registros. As unidades procuram encadeamentos verticais, que conduzem à superação dos suportes linguísticos e das próprias ações em si. As unidades procuram o entendimento e a transformação de quem as articula - ou de quem as realiza, para a construção de novos significados e novas realizações. No caso da experiência de uso de interfaces online, as unidades das narrativas são unidades de construção ativa de significação a partir da ação e da experiência de uso das interfaces.
Texto publicado em 1.11.2009.

Assuntos relacionados
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6. Participação em rede - objetos sociais
7. Modelo funcional participativo

Referências bibliográficas
1) Introduction to the structural analysis of narratives. In Image, Music, Text, de Roland Barthes. p. 79. New York: Hill and Wang, 1977.
Use of narrative in interactive design, de Nancy Broden, Marisa Gallagher e Jonathan Woytek (Boxesandarrows, 28.10.2004, acesso em 9.8.2009)
Livro: A forma do filme, de Sergei Eisenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.

Mais informação sobre o assunto
Experience themes, de Cindy Chastain (Boxesandarrows, 6.10.2009, acesso em 27.10.2009)

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