Design centrado no usuário (user-centered design)

Atualizado em 27.11.2011

O design centrado no usuário parte do princípio que o usuário é o principal foco da realização de um produto, por isto prioriza as suas necessidades, desejos, expectativas, condicionamentos. Em cada etapa do projeto, designers e projetistas consultam pessoas representativas dos usuários finais, para conhecê-los em profundidade e aliar técnica e sensibilidade em direção a resultados que criem empatia e identidade.

Esta abordagem de projeto é praticada há muito tempo por designers de produtos, sendo mais recente no design de interfaces digitais. Os sistemas desenvolvidos por engenheiros de software da década de 1940 até os anos 80 eram operados com base no modo como os computadores funcionavam, em parte devido às limitações de velocidade de processamento e memória. Além disso, as próprias dificuldades de operacionalização dos equipamentos concentravam a maior parte dos esforços no seu funcionamento.

A partir dos anos 80, programas e sistemas começaram a ganhar mais velocidade, memória, monitores coloridos e dispositivos, como o mouse. Neste momento, designers e cientistas começaram a intervir mais nos projetos destes produtos e a receptividad e dos usuários passou a receber mais atenção.

Com a popularização da web, modo gráfico da internet, nos anos 90, as interfaces e sistemas passaram a ser mais facilmente produzidas por pessoas não técnicas. Programação de aplicativos e publicação de conteúdo, antes atividades independentes, se aproximaram a ponto dos limites entre uma e outra ficarem imprecisos. Onde termina o aspecto editorial do texto, da imagem, e começa o lado funcional do botão, do formulário? Interfaces são ao mesmo tempo publicações, lojas, eventos.

Na medida em que o público encontra nas interfaces cada vez mais possibilidades de interlocução e ação com seus pares e com os próprios veículos, tem também maior poder para influenciá-los. Em decorrência, tem cada vez mais condições de participar da criação dos produtos, sejam sistemas, programas, interfaces, dispositivos digitais, ou objetos. A maioria das organizações publica páginas em mídias sociais ou ambientes online inteiramente dedicados à interlocução com o público, na busca de novas ideias e de retorno sobre seus produtos.

Processo de criação participativo

Produtos centrados no usuário geralmente se baseiam nos interesses de segmentos definidos, na medida em que é difícil atender, de forma personalizada, as necessidades e expectativas de públicos muito amplos. Um moedor a ser utilizado por consumidores de café em grão pode ser melhor desenhado em torno de algumas tipologias claras de determinados grupos de usuários. Já embalagens de café em pó, vendidas para públicos amplos, devem ter características menos personalizadas.

Em projetos centrados nos usuários e realizados em condições ideais, pessoas representativas do público-alvo devem estar presentes ou ser ouvidas em todas as etapas, desde as pesquisas iniciais até os testes de usabilidade de protótipos e versões pré-lançamento.

Como são os principais usuários? O que querem ou devem fazer? Como?

Os dados produzidos a partir de entrevistas, pesquisas e testes, sua estruturação em requisitos e análise, ajudam os projetistas a tomar decisões e a delinear os produtos. Os métodos de investigação para a definição dos requisitos incluem estudos etnográficos, análises contextuais, estudos de protótipo, testes de usabilidade, configuração de personas, card sorting, análise de produtos similares pré-existentes, entre outros.

E os métodos de criação de produtos podem também incluir os usuários em seções de design participativo, nas quais processos colaborativos permitem o monitoramento da receptividade e eficiência do produto durante todo o tempo do projeto.

A ISO 13407 – Human-centered design process - define processos gerais para atividades baseadas no usuário (mas não propõe práticas específicas). Estas incluem:

Definição do contexto de uso (quem são os usuários e como usarão o produto)

Criação de requisitos (comerciais, culturais, funcionais, técnicos) a considerar para que o resultado do projeto alcance seus objetivos

Criação de soluções formais e funcionais, que vão do layout de telas e dispositivos até o seu desenvolvimento e fabricação.

Testes e avaliação do produto, com a realização de ajustes (em bases permanentes, mesmo depois do lançamento do produto)

De maneira geral, pode-se considerar o design centrado no usuário como uma abordagem indicada para que os designers e projetistas se desloquem de sua própria subjetividade, de seus próprios padrões e referências para dar maior atenção aos interesses do público. Embora as interfaces digitais, online ou não, estabeleçam relações personalizadas com seus usuários, não são relações mediatizadas apenas pelas interfaces e pelo conteúdo, são também influenciadas pelos contextos sócio-culturais e técnicos.

Nestes ambientes complexos, o limite entre quem usa e quem cria está cada vez menos claro. Se o usuário vê uma maneira de melhorar um produto, pode entrar em contato com o fornecedor e expor a sua ideia, que pode realmente vir a gerar melhorias reais no produto. Por isto, a questão que se coloca aos projetistas atuais é surpreender os usuários, ou ir além das demandas dos usuários sobre um produto. Ou seja, desenhar o produto que os usuários não chegaram a articular (ou não souberam fazê-lo).

O design centrado nos usuários, embora cada vez mais praticado no dia a dia de projeto, para se realizar plenamente precisa buscar a própria superação.
(Texto publicado em 4.9.11).

 

Assuntos relacionados
Conceito editorial e comercial
Acessibilidade
Usabilidade
Testes de usabilidade
Construção de personas

Referências sobre design centrado no usuário
Livro: Designing for interaction – Creating innovative applications and devices, de Dan Saffer. Berkeley: New Riders, 2010
Livro: Prioritizing web usability, de Jakob Nielsen e Hoa Loranger. New York: New Riders, 2006.
Livro: Designing interfaces – Patterns for effective interaction design, de Jenifer Tidwell. O´Reilly, 2005
When what they see is what you get – but satisficing isn't enough (HFI, acesso em 31.5.2005)

Mais informação sobre o assunto (links externos)
Internet users judge web sites in less than a blink (ComputerWorld, acesso em 20.1.2006)

Ferramentas e recursos auxiliares
AttentionWizard, programa que pode ser usado para avaliar layouts de web sites a partir da simulação dos movimentos do olho humano e da verificação dos principais pontos de atenção. (SiteTuners.com, acesso em 4.12.2009)
Card sort analysis spreadsheet (Rosenfeld Media.com, acesso em 27.11.2011)

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