Usabilidade

Contextos culturais

Caso brasileiro

Atualizado em 11.1.2012

A população que acessou a internet no Brasil em outubro de 2011 foi de 78,5 milhões, 11,9% a mais que em outubro de 2010. Desde 2000, o número de internautas ativos no país foi de 9,8 milhões de pessoas para 78,5 milhões (1). Este quadro instável tem consequências diretas no projeto de web sites e portais..

A maior parte dos usuários do país (76,2%) são pessoas das classes A e B, com 15 ou mais anos de estudo, segundo a PNAD 2005 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE), divulgada em 2006. Usuários sem instrução ou com menos de 4 anos de estudo representam 2,5% do total.

Segundo o Ibope/NetRatings, 79% da classe A brasileira acessam regularmente a internet. Na classe B, o percentual baixa para 52%, e chega a 22% na classe C. Na classe DE, apenas 10% acessam a internet, 61% em locais públicos pagos e 28% em locais públicos gratuitos (IDG, 18.9.2006).

Apesar das dificuldades estruturais, o número de usuários cresceu 16% de 2006 a 2007 no país, que está na décima-primeira posição no mundo (ComScore).

Como na classe A brasileira o crescimento não deve ser muito alto nos próximos anos, o uso da internet no Brasil deverá crescer nas classes B e C, que cada vez mais têm acesso a conexões telefônicas e a equipamentos de baixo custo.

Desafios brasileiros

A heterogeneidade do mercado mostra que os web sites brasileiros, especialmente os portais para público amplo, precisam apresentar interfaces atraentes e funcionais tanto para pessoas acostumadas há anos ao uso da internet, quanto para o grande número de usuários que começa agora a usá-la.

Precisam considerar que os novos usuários:

Têm cada menos anos de instrução e pouco hábito de leitura (segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, há 85 milhões de analfabetos funcionais no Brasil).

Usam equipamentos menos potentes.

Acessam a web com conexões mais lentas (52,1% usam conexões discadas - PNAD 2005).

Para estas pessoas pouco familiarizadas não só com as interfaces web mas com o uso de tecnologias digitais, a compreensão de elementos funcionais interativos já convencionados, derivados de longo tempo de desenvolvimento de interfaces e aplicativos, é difícil. Inclui não só a decodificação de novos sistemas de símbolos como também dos modelos mentais a eles associados.

-> A configuração do browser, com diferentes modos de ajustar os tamanhos das letras, da janela, das páginas iniciais dos sites, pode ser ignorada por muitos, o que torna obrigatório que as páginas se mantenham estruturadas independentemente do tamanho da janela e da resolução do monitor.

-> O uso de carrinhos de compras online vem sendo aperfeiçoado, mas o abandono das compras devido à pouca clareza do processo é ainda alto. Usuários pouco familiarizados com as funcionalidades dos formulários sentem ainda mais dificuldade para fechar as compras que os usuários habituados ao uso da interface.

-> A navegação através de trilhas de orientação (ou "breadcrumbs") também é um processo que se consolidou gradualmente ao longo destes últimos 14 anos de internet. Os usuários mais inexperientes, atraídos pelos recursos de navegação mais visíveis e de uso intuitivo, tenderão a ignorá-las.

De qualquer forma, como são elementos que ocupam pouco espaço nas páginas, vale a pena inseri-las, para que o público novo vá se acostumando aos poucos com a sua funcionalidade.

Assim, as interfaces web precisam não só se mostrar muito simples de usar como apresentar textos especialmente escritos para a leitura em tela, redigidos em linguagem coloquial de fácil compreensão, exibidos de maneira clara.

Algumas características dos textos online, como a já tradicional visualização rápida, ou seu "rastreamento" visual imediato, precisam ser reconsideradas pelos editores e redatores.

Os novos usuários, com baixo grau de letramento, tendem a capturar menos instantaneamente o sentido dos textos, e se atêm mais à leitura de cada palavra, especialmente às mais longas e de difícil compreensão. Isto se o texto os interessa em especial, caso contrário tendem a abandoná-lo no meio da leitura.

Como os leitores leem as palavras lentamente, deve-se evitar publicar textos animados ou "rolantes", especialmente nas áreas de conteúdo das páginas.

Textos com corpo das letras maior do que para usuários com alto grau de letramento ficam mais fáceis de ler e compreender.

O excesso de concentração na leitura de cada palavra leva à dispersão da atenção na funcionalidade da interface, tanto em relação à rolagem da página, à navegação, como em relação ao uso de elementos para realizar tarefas.

Assim, a divisão das estruturas de informações com longas listas de itens como as de sites de comércio, com menos opções em cada uma, facilita a escolha dos elementos.

Layouts simples, que exijam menos rolagem das telas, facilitam a apreensão do conjunto de informações. A composição dos elementos, o contraste das cores e os estilos das tipologias devem ajudar a sinalizar as ações, para que os usuários saibam o que selecionar, onde ir, o que acontece em seguida.

No uso das ferramentas de busca, problemas frequentes como erros de digitação das palavas-chave, bem como a compreensão das páginas de resultados, dificultam a recuperação de informações. Neste caso, é importante a ferramenta dispor de corretor ortográfico adaptado à língua portuguesa e os textos dos resultados serem mais baseados no conteúdo das páginas do que nos elementos funcionais e de navegação.

A sinalização dos anúncios e a maior diferenciação do conteúdo editorial do conteúdo comercial ajudam os usuários a decidir o que fazer e o caminho de informações a seguir.

A adoção de políticas especialmente dedicadas aos novos usuários com baixo grau de letramento aponta para o aperfeiçoamento da usabilidade e da acessibilidade das interfaces web brasileiras, que cada vez mais precisam ficar auto-explicativas e didáticas. Além disso, o atendimento telefônico de grandes portais e serviços públicos precisa ter um reforço especial.

Também o público das classes A e B, os usuários da terceira idade, pessoas com deficiências físicas e cognitivas, se beneficiam com a adoção destas práticas, que respeitam as características do nosso ambiente cultural amplo e levam à criação de soluções inovadoras e específicas para o uso da internet comercial no país.



Assuntos relacionados
Testes – usabilidade
Interface : Trilha de orientação ("breadcrumb")
Arquitetura da informação : Aos novos, caminhos (da estrutura de informações)

Referências (Interface web)
1) Quase metade dos brasileiros acessa a internet, diz pesquisa (Convergência Digital, acesso em 1.12.2011)
Does culture matter for product design? (Core77, acesso em 10.1.2012)
Heurísticas para avaliação de usabilidade de portais corporativos (Documento elaborado por Cláudia Dias, extraído de sua dissertação de Mestrado, acesso em 2.11.2008)
Digital divide: The three stages, de Jakob Nielsen, sobre questões de usabilidade a observar em relação à exclusão digital (Alertbox, 20.11.2006)
Lower-literacy users, de Jakob Nielsen, sobre a usabilidade na web para usuários pouco habituados a ler (Alertbox, 14.5.2005)

Mais informação sobre o assunto (link externo)
Políticas de participação no design de interação, de Frederick Von Amstel (Usabilidoido, artigo apresentado no 4º Congresso Internacional de Design da Informação, acesso em 2.10.2009)
(1) Número de internautas ativos cresce 47% (B2B, acesso em 1.11.2007)

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