As duas principais classes de unidades das narrativas propostas por Roland Barthes em sua Introdução à análise estrutural da narrativa (1) distinguem as funções (relacionadas às ações dos personagens) e os índices (relacionados às características psicológicas, culturais, sociais dos contextos em que as ações ocorrem). No detalhamento destas ramificações, o autor propõe quatro subclasses, que examinamos aqui no contexto de narrativas construídas pelos usuários online.
Ao descrever a classe das funções, Barthes verifica que nem todas as suas unidades têm a mesma importância dentro da história. Algumas são fundamentais para o encadeamento e o desfecho, outras funcionam apenas para preencher espaços, criar ritmos, andamentos, articulações. Ele denomina as primeiras funções cardinais (ou núcleos) e as segundas, catálises. Já ao descrever a classe dos índices, Barthes distingue os elementos que caracterizam a narrativa, seus personagens, sua atmosfera, dos que servem para identificar os elementos e situá-los no tempo e no espaço. Chama os primeiros de índices e os segundos de informações. O esquema abaixo resume as relações entre classes e subclasses:
lasses e subclasses de narrativas, de acordo com análise estrutural de Roland Barthes
lasses e subclasses de narrativas, de acordo com análise estrutural de Roland Barthes
Detalhamos estas quatro subclasses e a aplicação destes conceitos a narrativas interativas.

Funções cardinais

As funções cardinais podem abrir a ação de uma narrativa (como a realizar uma busca online, por exemplo), mantê-la (usar a busca como referência para a navegação) ou fechá-la (selecionar um link nos resultados e encerrar a consulta a uma busca). Correspondem aos momentos de risco, suspense, dos quais não se sabe o final, ou então os momentos que encerram/ resolvem a narrativa.
Em uma narrativa literária, se a campainha da porta toca no meio da noite e o rumo da história muda a partir daí, o toque da campainha é uma função cardinal. Em uma narrativa online, quando um usuário recebe um pedido de uma pessoa para fazer parte dos seus relacionamentos em uma rede social este pedido pode modificar suas ações naquele momento para aceitá-la na sua rede e se comunicar com a pessoa. Neste caso, este pedido pode ser considerado uma função cardinal. Um pesquisador em busca de um texto na internet, ao achar uma fonte satisfatória, pode decidir imprimir o texto e encerrar aí a navegação. Ou então pode usar o texto para servir de referência a novas consultas. Estes dois últimos casos podem ilustrar funções cardinais da narrativa deste pesquisador.
A importância das funções cardinais para as narrativas interativas se estabelece em função de seu papel para realizar os objetivos do usuário. Por isto, embora se possa chegar a consensos genéricos sobre sua importância, esta varia de acordo com os critérios subjetivos de cada usuário.

Catálises

As catálises são funções que se situam, ou ocorrem, “entre” as funções cardinais, são ações de funcionalidade mais tênue. Existem para separar momentos importantes da história, ou manter seu sequenciamento. São pontos de pausa, repouso, que criam ritmo, aceleram ou retardam o discurso enfatizando a tensão semântica. Referem-se mais à construção de significados que às ações.
No filme À procura de Eric, de Ken Loach, o intervalo entre um almoço em família e a invasão da casa (onde estão os personagens) por um bando de policiais armados é preenchido por diálogos alegres em que pais e filhos reacendem seus laços afetivos. As conversas preenchem o tempo com harmonia e serenidade, logo interrompida pela violência das armas e dos gritos. Neste caso, as conversas, como catálises, ajudam a evidenciar o conflito entre as duas ações – o almoço e a invasão. Em uma narrativa online, uma pausa do usuário para ver uma apresentação, ou vídeo, que encontrou ao acaso pode ser uma catálise. Caso ele/a não visse a apresentação, seu percurso ou suas ações não mudariam. A leitura do perfil de um usuário antes de aceitá-lo como contato numa rede social pode ser uma catálise, caso sirva para a elaboração de justificativa entre a decisão de seguir o link do convite e de aceitá-lo.

Índices (como subclasse)

Subordinados à classe dos índices, são elementos da narrativa que ajudam a criar sua “atmosfera”, seu clima. Uma história de suspense é carregada de índices que vão aumentando de intensidade até o clímax final.
Um palácio de aparência sombria, o bigode esquisito de um pintor, o comportamento aristocrático de um bandido, podem ser índices que influenciam a caracterização dos elementos de uma história (mas que não influenciam diretamente suas ações e seu desfecho). Em uma narrativa online, índices podem ser os sinais que indicam se um site é popular ou não, se é indicado para pesquisas acadêmicas, se publica notícias. As telas carregadas de ofertas de sites de varejo sinalizam preços baixos e pechinchas. Neste caso, os índices são elementos como cores, tipologias estilos de textos, tratamento de imagens, animações, composições que identificam este tipo de site.
Elementos de layout e de tratamento do conteúdo (marcadores, setas) são basicamente indiciais, pois procuram criar relações empáticas com o público-alvo. Remetem quase instantaneamente para o conceito editorial/ comercial/ expressivo ao qual o site está associado.

Informantes

São dados precisos e significantes que conferem realismo e autenticidade à história. Não levam o leitor ou usuário a decifrar uma pista ou indício. Pelo contrário: os informantes são claros e transparentes, sua funcionalidade não está na construção da história, mas na construção do discurso.
Em uma história de terror, se a idade do mordomo do castelo é uma informação realista, que não interfere no desenrolar da trama e não traz em si um elemento que influencia a expressividade da composição em geral, constitui um elemento informante. Em uma narrativa online em que o ambiente de navegação e uso contém muito mais conteúdo que o usuário tem necessidade ou interesse de ver, podemos considerar informante todo elemento editorial presente em qualquer momento da ação que apenas contribua para compor o contexto, como a data, a hora do acesso, em um canto da página. Neste caso, informante é um elemento composicional quase neutro embora sua função seja em si importante para compor a narrativa.
A compreensão sistemática dos elementos das narrativas interativas nos permite entendê-las fora dos limites das mídias digitais, a partir de parâmetros mais amplos que os estabelecidos pelos conceitos editoriais e comerciais dos negócios e metas a eles relacionados. Estes elementos nos permitem analisar os canais online sob o ponto de vista dos usuários, levando em conta seus modelos mentais, suas afetividades, seus contextos culturais, os quais diferenciam as histórias que criam a cada momento, das histórias que outros usuários tecem em diferentes tempos na grande rede. (Texto publicado em 22.11.2009.)  

Referências

1) Introduction to the structural analysis of narratives. In Image, Music, Text, de Roland Barthes. p. 79. New York: Hill and Wang, 1977. Inteligência competitiva em organizações: dado, informação e conhecimento, de Marta Lígia Pomim Valentim (Datagramazero, 8.2002, acesso em 22.11.2009) Dado, informação, conhecimento e competência, de Valdemar W. Setzer (IME/ USP, 2001, acesso em 22.11.2009) Experience themes, de Cindy Chastain (Boxes and Arrows, 6.10.2009, acesso em 27.10.2009)