Em 2016, a internet estava presente em 63,6% dos lares e em 94,8% havia celulares conectados à rede. Mas até 2013, menos da metade dos domicílios brasileiros tinha acesso à internet, sendo que nos domicílios com renda per capita de até um salário mínimo, o acesso era de 11% (1). Em 2014 o país passou a ter mais de 50% dos lares com conexão à rede. Em 92,3% dos lares brasileiros pelo menos um morador possuía celular em 2016. O acesso à internet cresce cada vez mais entre os brasileiros mais pobres. Em 2005, a maior parte dos usuários do país (76,2%) eram pessoas das classes A e B, com 15 ou mais anos de estudo; mas em 2013, o acesso nos domicílios de renda entre 1 e 2 salários mínimos, foi de 27%, e no grupo de 2 a 3 salários, de 52%. (2) Esse quadro de acelerada mudança tem consequências diretas no projeto de produtos digitais.

A heterogeneidade do mercado mostra que produtos digitais brasileiros, especialmente portais para público amplo, ou de serviços públicos, precisam apresentar interfaces atraentes e funcionais tanto para pessoas acostumadas há anos ao uso da internet, quanto para o grande número de usuários que a utiliza há pouco tempo, ou utiliza apenas em dispositivos móveis.

Precisam considerar que os novos usuários:

Têm cada menos anos de instrução e pouco hábito de leitura. Segundo o IBGE, em pesquisa divulgada em abril de 2015, 34,5% das pessoas com até 7 anos de estudo navegaram na web em 2013. E 89,8% dos que estudaram 15 anos ou mais. Também segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, há 85 milhões de analfabetos funcionais no Brasil.

Usam equipamentos menos potentes, nem sempre computadores ou smartphones com processadores rápidos.

Acessam a web com conexões lentas, mesmo quando consideradas de banda larga.

Em maio de 2015, apenas 20% das escolas no estado do Rio de Janeiro tinham acesso à internet com fibra óptica, e a velocidade de acesso de 50% não chegava 1MBS para compartilhamento por toda a instituição. (4) Essa situação se estendia pelo resto do país: em 35% das escolas a velocidade também era de, no máximo, 1 Mbps – sendo que em 17% era inferior a 999 kbps. Em 9% das escolas a conexão ainda era feita por acesso discado. E do Nordeste, em 19% das escolas não havia internet nos laboratórios de informática. (6)

No caso dos domicílios, a situação era diversa, com maior presença dos dispositivos móveis: em 2013, 8,7% dos domicílios da região Norte acessavam a web apenas por meio de equipamentos que não eram computadores, sendo que no Amapá 43% utilizavam apenas o smartphone ou tablets, enquanto 11,9% se conectavam pelo computador. Os dispositivos nem sempre dispunham de conexões muito rápidas, e implicavam em condições de acesso bem específicas. (3)

Nem sempre identificam sinais que caracterizam sites/mensagens mais ou menos confiáveis, e por isso podem ter maior tendência a tomar decisões ou a realizar compras e transações sem receber o retorno esperado, o que acontece menos com usuários experientes.

Como a entrada no mundo digital é cada vez mais cedo, é cada vez maior a vulnerabilidade de crianças e adolescentes ao mau uso de dados pessoais, ao acesso a conteúdo prejudicial e ao cyberbullying – 71% estão conectados no Brasil, contra a média global de 48% (2017). Criadores de “culturas do quarto”, ficam muitas horas conectados sem supervisão de adultos em relação ao conteúdo produzido e acessado – o acesso não veio acompanhado de políticas, nem de práticas comerciais que levem em conta as crianças. (8)

De 2011 (quando foi criada) até 2015, a lista de comerciantes online não confiáveis do Procon de São Paulo mais que decuplicou: pulou de 44 lojas virtuais brasileiras para 472. O motivo do crescimento acelerado se deu em grande parte devido ao grande número de pessoas comprando pela primeira vez pela internet. (5)

Para pessoas pouco familiarizadas não só com as interfaces mas tecnologias digitais, a compreensão de elementos funcionais interativos já convencionados, derivados de longo tempo de desenvolvimento, experimentação e aperfeiçoamento de interfaces e aplicativos, não é tão simples como parece. Inclui não só a decodificação de sistemas de símbolos como também dos modelos mentais a eles associados.

A configuração do browser, com diferentes modos de ajustar os tamanhos das letras, da janela, das páginas iniciais, pode ser ignorada, o que torna obrigatório que as interfaces se mantenham estruturadas independentemente do tamanho da janela e da resolução de tela.

O uso de carrinhos de compras online vem sendo aperfeiçoado, mas o abandono das compras devido à pouca clareza do processo é ainda alto. Usuários pouco familiarizados com as funcionalidades dos formulários ainda sentem mais dificuldade para fechar as compras que os usuários mais experientes.

A navegação através de trilhas de orientação (ou “breadcrumbs”) também é um processo que se consolidou gradualmente ao longo destes últimos 14 anos de internet. Os usuários mais inexperientes, atraídos pelos recursos de navegação mais visíveis e de uso intuitivo, tendem a ignorá-las.

Como são elementos que ocupam pouco espaço nas páginas, vale a pena inseri-las, para que o público novo vá se acostumando aos poucos com sua funcionalidade.

Assim, as interfaces web precisam não só se mostrar muito simples de usar como apresentar textos especialmente escritos para a leitura em tela, redigidos em linguagem coloquial de fácil compreensão, exibidos de maneira clara.

Algumas características dos textos online, como a já tradicional visualização rápida, ou seu “rastreamento” visual imediato, precisam ser reconsideradas pelos editores e redatores.

Os novos usuários, com baixo grau de letramento, tendem a capturar menos instantaneamente o sentido dos textos, e se atêm mais à leitura de cada palavra, especialmente às mais longas e de difícil compreensão. Isto se o texto os interessa em especial, caso contrário tendem a abandoná-lo no meio da leitura.

Como os leitores leem as palavras lentamente, os textos animados ou “rolantes”, especialmente nas áreas de conteúdo das páginas, são mais difíceis de ler.

Textos com corpo das letras maior do que para usuários com alto grau de letramento ficam mais fáceis de ler e compreender.

O excesso de concentração na leitura de cada palavra leva à dispersão da atenção na funcionalidade da interface, tanto em relação à rolagem da página, à navegação, como em relação ao uso de elementos para realizar tarefas. Daí a necessidade de atenção extra na simplicidade e na limpeza dos elementos.

Assim, a divisão das estruturas de informações das longas listas de itens como as de sites de comércio, com menos opções em cada uma, facilita a escolha dos elementos.

Layouts simples, que exijam menos rolagem das telas, facilitam a apreensão do conjunto de informações. A composição dos elementos, o contraste das cores e os estilos das tipologias devem ajudar a sinalizar as ações, para que os usuários saibam o que selecionar, onde ir, o que acontece em seguida.

No uso das ferramentas de busca, problemas frequentes como erros de digitação das palavas-chave, bem como a compreensão das páginas de resultados, dificultam a recuperação de informações. Neste caso, é importante a ferramenta dispor de corretor ortográfico adaptado à língua portuguesa e os textos dos resultados serem mais baseados no conteúdo das páginas do que nos elementos funcionais e de navegação.

A sinalização dos anúncios e a maior diferenciação do conteúdo editorial do conteúdo comercial ajudam os usuários a decidir o que fazer e o caminho de informações a seguir.

A adoção de políticas especialmente dedicadas aos usuários com baixo grau de letramento aponta para o aperfeiçoamento da usabilidade e da acessibilidade das interfaces de mídias digitais brasileiras, que cada vez mais precisam ficar auto-explicativas e didáticas. Considerando também o acesso massivo por dispositivos móveis, é preciso cada vez mais naturalizar e simplificar o uso.

Também o público das classes A e B, os usuários da terceira idade, pessoas com deficiências físicas e cognitivas, se beneficiam com a adoção destas práticas, que respeitam as características do nosso ambiente cultural amplo e levam à criação de soluções inovadoras e específicas para o uso da internet comercial no país.

(Atualizado em 16.12.2017)

 

Referências

8) Unicef alerta que acesso à internet só pelo smartphone amplia fosso digital (Convergência Digital, acesso em 28.11.2017)

7) Mais de 63% dos domicílios têm acesso à internet, aponta IBGE (Convergência Digital, acesso em 28.11.2017)

Brasileiro passa 4 minutos em uma página da internet, diz Google, pesquisa “Micro-Momentos”, feita pelo Google (Olhar Digital, acesso em 26.8.2015)

6) Conexões ruins levam escolas públicas a contratar acesso privado (Convergência Digital, acesso em 25.5.2015)

5) Loja virtual, risco real: lista de sites desonestos cresce dez vezes desde 2011 e chega a 472 (O Globo, acesso em 20.5.2015)

4) No Rio de Janeiro, 50% das escolas não têm 1Mega para acessar à Internet (Convergência Digital, acesso em 20.5.2015)

3) IBGE: Renda e escolaridade têm relação direta com acesso à internet (Valor Econômico, acesso em 29.4.2015)

2) Internet chega a 46,5% dos brasileiros (Convergência Digital, acesso em 22.5.2013)

1) Quase metade dos brasileiros acessa a internet, diz pesquisa (Convergência Digital, acesso em 1.12.2011)

Does culture matter for product design? (Core77, acesso em 10.1.2012)

Heurísticas para avaliação de usabilidade de portais corporativos (Documento elaborado por Cláudia Dias, extraído de sua dissertação de Mestrado, acesso em 2.11.2008)

Digital divide: The three stages, Jakob Nielsen, sobre questões de usabilidade a observar em relação à exclusão digital (Alertbox, 20.11.2006)

Políticas de participação no design de interação, Frederick Von Amstel (Usabilidoido, artigo apresentado no 4º Congresso Internacional de Design da Informação, acesso em 2.10.2009)

1) Número de internautas ativos cresce 47% (B2B, acesso em 1.11.2007, não mais acessável)